Hoje assisti a um vídeo do canal HQ sem Roteiro e imediatamente me lembrei de um episódio que vivi nas redes sociais.
O que aconteceu com o conteúdo deles — que simplesmente não foi exibido para quase ninguém, mesmo com seguidores — é o mesmo que acontece comigo, com você, com empresas e criadores de todo tipo: o que postamos quase nunca chega ao nosso público.
Mesmo quem nos segue, muitas vezes não vê nada do que postamos. E isso não é aleatório. Existe um desequilíbrio claro — e ele está diretamente ligado ao tipo de conteúdo que você compartilha.
Talvez alguns conteúdos realmente sejam entregues. Mas isso não é regra. A lógica (ou o que deveria ser a lógica) seria: primeiro mostrar o conteúdo para toda a base de seguidores e, depois, abrir para pessoas fora desse conjunto que têm interesses em comum com o tema.
Afinal, por que construir um canal, conquistar seguidores, se essas pessoas raramente — ou nunca — verão o que você posta?
A lógica por trás do tal “algoritmo” parece não ter lógica nenhuma.
Meu perfil pessoal no Instagram é bem variado: filhos, flores, corrida, receitas.. muitas!, textos e reposts que acho interessantes. E, de vez em quando, posto algum conteúdo mais sério.
Dia desses, fiquei indignada com uma notícia sobre uma professora trans que se fantasiou de Barbie para receber os alunos no primeiro dia de aula — assim como todos os outros professores daquela escola — mas que infelizmente foi duramente atacada de forma racista e transfóbica – Ler aqui!.
Fiquei chocada. Ações como essa, fora da caixinha, são incríveis, envolvem os alunos em um contexto lúdico, humano, criativo. Mas infelizmente, ela foi alvo de críticas pesadas. Resolvi repostar o conteúdo em apoio.
Mas quando fui verificar se o repost apareceu no meu perfil, sem querer, adicionei um emoji – guarde esta informação. Nem percebi e fui dormir.
No dia seguinte, minha caixa de mensagens estava lotada: mais de 100 comentários. Eu nunca tinha recebido mais de 5, talvez com fotos de bebê, em torno de 20..mas só.
Pensei: “Nossa! Que receita será que bombou? Acho que descobri o novo morango do amor!!!”
Mas não era nada disso. Eram todos comentários sobre a minha re-postagem — e, principalmente, sobre o emoji que subiu junto com o stories. Gente me perguntando se eu achava engraçado o fato de a professora agora ter medo de sair de casa. Outro indignado com o meu suposto riso diante de algo tão sério. E a vasta maioria… discursos de ódio, transfobia e racismo concordando comigo!!!! Hein.
Fui tentar entender de onde aquilo vinha. Sinceramente, demorei a perceber que publiquei isso aqui : “????” ou seja, dei a entender que minha reação foi chorar de rir. Putz.
Logo pensei: será que ninguém nem olhou o meu perfil antes de me atacar? Eu sempre posto conteúdos em apoio às minorias, contra o racismo, etc.
Ingenuidade a minha achar que alguém pesquisa ou lê algo sobre você na internet antes de atirar a primeira pedra.
Fui atrás de tentar encerrar aquilo tudo. Mas antes, fiz questão de comentar em todos os posts que a carinha foi um erro!!! E que meu apoio à professora era total. Depois, apaguei o story e encerrei este ciclo.
O mais importante aprendizado prático: o meu conteúdo mais discutido e visualizado da vida, foi justamente aquele que gera a tal polarização… Não, não foi o meu bolo sem açúcar. Nem o post sobre o corante alimentício ligado ao câncer e presente em produtos infantis.
Voltando ao exemplo dos vídeos do HQ sem Roteiro:
Um perfil com 1.692,2 seguidores posta um conteúdo. Esse conteúdo é visualizado por 1.176 pessoas.
Ou seja, menos de 1% dos seguidores visualizaram o vídeo.
Se houvesse uma lógica… lógica, no mínimo, todos os seguidores veriam o vídeo. Não estou falando em clicar, curtir, comentar — apenas ver.
Mas o conteúdo foi mostrado para um número menor que 1% do seu total de seguidores.
Por quê? Como? Qual é a lógica?
Os algoritmos são definidos pelas plataformas, programados pelas empresas que os controlam, com um objetivo: maximizar lucros.
Ou seja, se determinado conteúdo tem maior chance de ser curtido, comentado e compartilhado, é esse conteúdo que será entregue para mais pessoas.
E quanto mais ele for mostrado, mais ele pode engajar — e mais lucro gera.
Essas plataformas já sabem que tipo de conteúdo tem esse potencial. E, por isso, o algoritmo trabalha para localizá-los e distribuí-los em massa.
Resumo do resumo: que conteúdos são esses?
Fofoca, mentira, pedofilia, polarização política, entre outros.
Quando esse tipo de conteúdo não chamou a atenção da humanidade? Nunca.
Mas há também outro tipo de conteúdo que o algoritmo prioriza: aquele que está alinhado com os interesses da empresa dona da plataforma.
Esses interesses geralmente estão relacionados a apoio político, que garante que essas empresas possam continuar no status quo: programando o algoritmo com foco exclusivo no lucro, sem se importar com as consequências desse conteúdo na vida das pessoas.
E neste caso, conteúdos como Gaza e minorias, como nos do exemplo do HQ sem roteiro, foram barrados, aparecerem para pouquíssimas pessoas, por justamente não estarem alinhados com interesse das empresas.
E assim caminha o algoritmo, com uma censura previa de um lado, e passando a boiada do outro. Arrastando multidões conectadas nas redes sociais para ver, comentar, compartilhar — e, claro, gerar atividade econômica em cima disso. Usam indiscriminadamente crianças, adolescentes, adultos e idosos. Todos são alvos. Todos são potenciais consumidores. Todos geram lucro.
Maria Carolina de Mattos Donda
Canal HQ Sem Roteiro no TikTok – https://www.tiktok.com/t/ZTHspdA4U2cdd-DbqRS/
Matérias sobre a Professora Emy Santos –Metrópoles / G1
